publicidade-infantil-leiDesde a publicação da resolução proibindo a publicidade infantil até hoje, nada aconteceu. Traçamos 3 desfechos possíveis para a propaganda e a programação infantil na TV aberta.

Em 04 de abril de 2014 foi publicada uma resolução de um Conselho ligado à Presidência da República (CONANDA) que qualquer publicidade voltada a crianças, inclusive em embalagens, é abusiva. Propagandas de produtos infantis podem existir, mas voltadas a adultos.

Mas se na prática, nada mudou ainda, a resolução gerou uma tremenda insegurança em anunciantes, diminuindo a previsão de investimento. E uma acalorada discussão entre os grupos pró e contra a restrição – afinal de contas, o mercado de produtos infantis movimenta mais de R$ 50 bilhões por ano no país (fonte – folha).

 

Afinal de contas, esta resolução vale ou não vale?

No Código de Defesa do Consumidor já há uma proibição à publicidade que se “aproveite da deficiência de julgamento da criança”. No entanto, o Conanda propõe que toda e qualquer publicidade voltada a criança é abusiva.

Os anunciantes defendem que as restrições ferem a liberdade de expressão e são inconstitucionais. Existe um projeto de lei propondo a ilegalidade da resolução. Vamos ver o debate pegar fogo quando uma propaganda for julgada, o que não ocorreu até agora.

 

E o que isso vai gerar?

Temos que lembrar que a TV aberta é um negócio. Mostra programas de interesse de um determinado público, para atrair anunciantes para pagar este horário e com isso obter lucro.

São os anunciantes que patrocinam o que os espectadores estão vendo. Se a publicidade voltada ao público infantil é proibida, logo esse público se torna inviável para a emissora. Com base nisso, ousamos traçar, em um rápido exercício de pensamento, três cenários.

Cenário 1 – Os anunciantes fazem propagandas, mas voltadas aos pais.

Os anunciantes terão que fazer propaganda “hipócritas”, pseudo-voltadas aos pais mas com o intuito de atingir as crianças. Isso te lembra alguma coisa? Na época da censura, era este o meio de passar mensagens “não-aprovadas” pelo governo, não é mesmo?

Cenário 2 – Apenas propagandas “gerais” serão exibidas no horário da programação infantil.

Margarinas, refrigerantes, roupas, tudo ao que as crianças já são expostas nos horários em que seus pais assistem TV. E para estas propagandas a regulamentação é bem mais simples. Elas não afetam as crianças, mesmo assim?

Cenário 3 – Será o fim dos programas infantis “gratuitos” de televisão.

Para oferecer desenhos e programação infantil a seus filhos os pais terão que ter outros meios que não a TV aberta, como TV a cabo, Internet, Netflix… Como a lei da oferta e procura se aplica, os custos irão aumentar para obter esta programação. Na teoria, o ideal era oferecer outras fontes de entretenimento para as crianças – brincar na rua, ir a parques… mas infelizmente ainda faltam aos pais tempo (tolhido em parte pelo transporte entre trabalho e casa, por exemplo), segurança (para deixar uma criança brincar na sua própria rua), só para citar algumas das deficiências da atual sociedade brasileira.

O mais sensato seria apostar em um misto destes três cenários se a resolução for realmente levada à sério.

 

E quem será o maior prejudicado?

O CONAR é um dos órgãos autorregulamentadores que melhor funcionam neste país. Age mais rápido que o governo, é respeitado por todas as agências de propaganda e é democrático. Qualquer um, com ou sem dinheiro, pode reclamar de uma propaganda, e ela será analisada. É uma pena vê-lo desautorizado desta forma.

Os anunciantes e agências terão que encontrar alguma outra forma de manter os negócios com os produtos infantis, embora possam enfrentar uma grande redução no valor deste mercado em um cenário econômico que já não se encontra nada favorável.

Agora, os pais e crianças que não tem acesso a outros meios de comunicação e entretenimento, estes sim serão desfalcados com uma fonte de entretenimento gratuito a menos. Porque ninguém pergunta aos pais, os maiores interessados, o que eles acham, antes de fazer este tipo de regulamentação?

Como ponto positivo, fica a discussão. Afinal de contas, existe sim um abuso dos impulsos consumistas na sociedade em que vivemos e é claro que isso reflete em nossas crianças. É muito saudável discutir isto. Mas esta discussão podia ter sido gerada de outra forma, mais efetiva e menos impositiva.

 

2 Responses to “Não vai ter mais publicidade infantil?”

  1. Telma, Responder

    É só verificar como funciona a tv nos inúmeros países onde a propaganda para o publico infantil é proibida.
    Não podemos colocar interesses pessoais e o “maldito” dinheiro que corrompe tudo falar mais alto que o bem estar das crianças, não dá pros pais estarem mudando de canal sempre que os comerciais inundam a casa mostrando que aquilo é maravilhoso e na cabeça das crianças indispensável. Para uma criança é muito difícil lidar com isso, eles não possuem “armas” para lidar com as “armadilhas” publicitárias. É “golpe baixo”, é só se informar com qualquer psicólogo mais ou menos, nem precisa ser um ótimo psicólogo. quem tem que decidir isso são os profissionais especializados no funcionamento do cérebro em especial infantil, são psicólogos e psiquiatras entre outros especialistas que não tenham opiniões tendenciosas como os ligados diretamente a produção e transmissão de propagandas ou os produtores de brinquedos. Pasmo ao ver que as pessoas pouco se importam com as próprias crianças, com o bem estar dos outros, com o sofrimento e sentimento de inadequação que isso causa. É INACREDITÁVEL!!!!! Temos que estar atentos que os pais pouco sabem dos resultados e efeitos que a propaganda e bombardeio de incentivo ao consumo, é só ver o quanto consomem e o quanto enchem as crianças de produtos em geral. Agora falar em perguntar as crianças é brincadeira, né?! Pq elas não são capazes de saber o que está sendo feito contra elas.
    Me pergunto como alguém que opta por trabalhar com produtos pra crianças não se importa com as próprias? Mas eu sei a resposta. DINHEIRO. O q as pessoas não fazem por dinheiro? Os valores de nossa sociedade, a auto estima das pessoas, que certamente já foram vítima de ter de ter pra serem bem aceitos já na infância, certamente pessoas assim não intenderam os valores corretos.

    • Edhy Marketing, Responder

      Oi Telma, a ideia não é perguntar às próprias crianças, que realmente não tem o poder de julgamento necessário. Mas sim aos pais das mesmas. É uma discussão muito rica e publicidade infantil tem sim que ter limite e regulamentação. Mas veja os cenários que traçamos e avalie – a probabilidade de, ao proibir totalmente a publicidade infantil, estarmos tirando uma opção de entretenimento das crianças cujos pais não tem dinheiro para assinar uma TV a cabo ou ter internet em casa (que por sinal, precisa ser muito melhor vigiada porque oferece ainda mais riscos do que apenas propagandas). Ou então as crianças estarão sendo expostas a propagandas que não são para elas. E que também criam estímulos. Não seria pior?
      Idealmente, deveríamos passar mais tempo com nossas crianças, leva-las ao parque, brincar na rua e desligar a TV. Mas no mundo real isso se torna inviável para a maioria dos pais. É uma questão de efeitos e escolhas entre opções mais ou menos danosas para nossas crianças. É por isso que a sociedade como um todo precisa estar engajada nesta discussão.

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