Este é um texto bem interessante, que mostra um pouco os efeitos não-econômicos que uma crise de confiança gera. Conversamos com o autor e ele permitiu que publicássemos aqui. Não tenha medo, acredhyte!

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O maior prejuízo da tal crise que está aí jamais será contabilizado. Todo empreendimento, seja uma siderúrgica com vinte mil funcionários ou o carrinho de pipoca do Zé, sustenta-se sobre alguns pilares: a engenharia, a produção, o financeiro, as compras, a informática, os recursos humanos, a administração, o marketing, o comercial… Esses pilares variam conforme o tipo de negócio, mas a maioria sempre está lá. O Zé da Pipoca tem engenharia. Tem finanças. Tem recursos humanos. Tem marketing, não tem?

Pois bem. No início dos anos noventa, ao mergulhar na globalização, esperávamos ter os mercados mundiais abertos para os produtos brasileiros. Mas não imaginávamos que diante da concorrência dos japoneses, alemães, estadunidenses e chineses, nossa ineficiência, desorganização e amadorismo ficariam explícitos. Não dava pra nós.

Buscando uma solução importamos programas de qualificação como a série ISO 9000 e partimos para controlar, medir, mapear e organizar nossos processos produtivos. Melhoramos excepcionalmente, principalmente nos pilares fundados nas “exatas”, como a engenharia, produção, compras e finanças, que desenvolveram métodos e indicadores capazes de mostrar com clareza sua utilidade e eficiência. Ganharam previsibilidade.
Variabilidade mínima. Controle.

Ao mesmo tempo as disciplinas “humanas” ficaram para trás. Áreas como o marketing e recursos humanos, que lidam com questões subjetivas, até tentaram utilizar indicadores, mas só conseguiram produzir “dados emocionais”.

E os engenheiros e contadores riram…

Embora todos os discursos falassem da importância do foco nos pilares “humanos”, eles passaram a ser duramente questionados nas reuniões de resultados. Enquanto as “exatas” exibiam suas minuciosas planilhas, as “humanas” não conseguiam nem mesmo provar que eram necessárias.
Passaram então a ser rotuladas de “serviços de suporte”, “prestadores de serviços” e “centros de custos”. Coisas legais de fazer, mas que não são necessárias, sabe como é?

Quando vem a crise (mais uma…), dança quem não consegue provar sua utilidade, seu valor. Seu “retorno do investimento”. Se uma planilha Excel não consegue mostrar para que serve ou quanto vale o trabalho que você faz, bote as barbas de molho. Você é provavelmente um “não-produtivo”. O sujeito que gasta o dinheiro que os “produtivos” penam para ganhar…

E então vamos demitir. Cortar os benefícios. Parar com os treinamentos. Olha o cafezinho! Parem com as propagandas! Reduzam as páginas ou a periodicidade do jornal interno. Ou acabem com ele! É despesa! E nem pensem em festa junina, hein? Estamos em crise!

Sabe qual será a consequência? Nenhuma. Para quem toma essas decisões, o que não cabe na planilha, não existe.

Para lidar com os pilares de “humanas” é preciso mais do que competência técnica. Muito mais que um diploma de MBA. É preciso ter…
Culhões. Culhões para confiar em resultados que não podem ser apresentados numa planilha Excel. Para aceitar “dados emocionais”.

Mas fala a verdade, no meio da crise quem é que tem culhões para apostar no invisível? O bom senso, o consenso e a cautela dizem: na crise, só se aposta no que é garantido. No que dá pra ver. No que é exato. No previsível. Sem subjetividades, emoções e percepções. É assim que gente sensata faz.

A crise que vivemos é uma crise de confiança, de fé. Sem fé os negócios passam a ser “fabricar, controlar e vender”. Só.

O maior prejuízo da crise que está aí não pode ser contabilizado: é o predomínio dos pequenos executivos que estão derrubando os pilares de “humanas”.

Essa gente não tem fé. Tem medo.

Por Luciano Pires

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